'Eu vou para o mundo com a escama de peixe', comemora artesã da Paraíba
25/12/2016 22:01

‘Eu vou para o mundo com a escama de peixe’, comemora artesã da Paraíba

Artesãs de Cabedelo desejam um espaço para expor suas peças. Sereias da Penha conq...

Artesãs de Cabedelo desejam um espaço para expor suas peças. Sereias da Penha conquistaram sucesso e visibilidade com o artesanato.

Teresa Lúcio, de 59 anos, chegou na sala com um balde branco, exalando um cheiro forte de peixe. A escama chegou naquela manhã, fresquinha, à casa dela em Cabedelo, na Paraíba. O quilo da escama do peixe da espécie Camurupim custou R$ 50. No entanto, há treze anos, a escama era lixo, descartável. Hoje transforma-se em rosas, luminárias, colares, brincos, tudo que o artesanato for capaz de fazer.

A vida de Teresa foi transformada pelo trabalho artesanal com a escama, assim como a de France Lucas, as duas de Cabedelo. Outras doze mulheres que fazem parte de outro projeto, o Sereias da Penha, também encontraram em um objeto antes descartado na natureza a fonte de renda que precisavam.

Para Teresa e France, tudo começou em uma oficina que decidiu olhar e enxergar as mulheres de Cabedelo. Promovida pela Secretaria de Políticas Públicas para Mulheres do município, a proposta era gerar renda própria para as artesãs.

Uma oficina orientada pelo estilista Léo Mendonça foi realizada com as mulheres que já eram artesãs. Com o aperfeiçoamento, surgiu o Ondinas Cabedelo, unindo crochê com a habilidade da escama. “O nome surgiu porque ondinas são seres do mar, seres da água, todo mundo falou, todo mundo aprovou, todo mundo concordou”, comentou Teresa.

Depois de criado o Ondinas e do primeiro desfile marcar o Centro de Convenções da Paraíba, as peças das artesãs foram cadastradas na Secretaria das Mulheres de Cabedelo para serem usados em exposições em todo o Brasil. “Existe muita mão de obra qualificada no artesanato, tem quase todo tipo de artesanato aqui em Cabedelo. Eu tô em Cabedelo há 14 anos e sou apaixonada pelo artesanato”, declarou Teresa.

A escama veio para ficar
Desde os oito anos de idade, Teresa vive do artesanato. A primeira arte foi costurada pelas mãos de quem queria mais de duas roupas novas por ano. “Pra gente ter roupa extra, minha mãe fazia crochê para fora. Para pegar mais encomenda e ela comprar mais roupa pra gente, aprendi a fazer”, contou. Conheceu a pintura, o artesanato com madeira e hoje coloca o talento nas peças com escamas de peixe.

As histórias do artesanato passam nas vidas de várias mulheres que hoje desenham com as mãos. Como uma brincadeira de criança, France começou a vida da arte catando conchas nas praias. Depois, surgiu a escama. Ela foi uma das primeiras a descobrir o trabalho artesanal com a escama de peixe em Cabedelo. “Faz treze anos que trabalho com escama de peixe, fiz um curso na praia do Jacaré”, contou. France está sempre buscando crescer, mas não deixa para trás a história de criança. “Hoje não tenho tanto tempo de procurar as conchas, mas estou sempre conhecendo as tendências de moda”, destacou.

Com tanto tempo vivendo da arte com as mãos, Teresa confessa que sempre acreditou na escama. “A escama veio para ficar”, fala com orgulho. Mas não foi fácil construir um trabalho em cima do descarte. O olhar para a escama mudou em treze anos de trabalho e, felizmente, foi para melhor. “Quando a gente ia para o salão de artesanato, as pessoas paravam e perguntavam o que era. A gente dizia que era escama de peixe e elas só faltavam jogar na cara da gente, com nojo. Com desprezo. Porque é lixo. A escama era lixo. Descartável”, lembrou.

‘É minha independência, nosso trabalho’
A ‘sereia’ mais nova tem 16 anos, a mais velha, 43, e se chama Edna. Ela é mãe de três filhas, que também frequentam a loja e o ateliê, contribuindo com a produção das sereias. Edna participou da primeira oficina e, desde então, a vida também mudou. “Antes eu ficava em casa, passei por um processo de divórcio e isso [o projeto] me ajudou muito”, declarou.

Não esperava pela mudança, no começo era só um curso. Devagar, foi aprendendo a fazer arte com as mãos. “O que me interessou foi a surpresa de trabalhar com escamas, nunca tinha ouvido falar, então resolvi participar. Hoje o artesanato é uma coisa maravilhosa para mim”, relatou Edna.

No início, as filhas ficavam em casa. Hoje, com a demanda das produções, começaram a frequentar o ateliê, aprenderam a arte e ficaram. “Me sinto feliz, maravilhada, encantada. É um trabalho artesanal muito bonito. É minha independência, nosso trabalho”, finalizou Edna.

* G1-PB Sob a supervisão de Aline Oliveira



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